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Entrevista histórica - Por Selmo Vasconcellos

POR SELMO VASCONCELLOS

24 de Agosto de 2018 às 08:42

Entrevista histórica - Por Selmo Vasconcellos

FOTO: (DIVULGACÃO)

ASTRID CABRAL – Rio de Janeiro, RJ.
3 de SETEMBRO de 2009.
 

BIOGRAFIA


ASTRID CABRAL FÉLIX DE SOUSA nasceu a 25/09/36 em Manaus, AM, onde fez os primeiros estudos e integrou o movimento renovador Clube da Madrugada. Adolescente ainda transferiu-se para o Rio de Janeiro, diplomando-se em Letras Neolatinas na atual UFRJ, e mais tarde como professora de inglês pelo IBEU. Lecionou língua e literatura no ensino médio e na Universidade de Brasília, onde integrou a primeira turma de docentes saindo em 1965 em consequência do golpe militar. Em 1968 ingressou por concurso no Itamaraty, tendo servido como Oficial de Chancelaria em Brasília, Beirute, Rio e Chicago. Com a anistia, em 1988 foi reintegrada à UnB. Ao longo de sua vida profissional desempenhou os mais variados trabalhos, fora e dentro da área cultural. Detentora de importantes prêmios, participa de numerosas antologias no Brasil e no exterior. Colabora com assiduidade em jornais e revistas especializadas. Viúva do saudoso e grande poeta Afonso Félix de Sousa, é mãe de cinco filhos.

 

ENTREVISTA


SELMO VASCONCELLOS - Quais as suas outras atividades, além de escrever ?
ASTRID CABRAL - As atividades próprias de uma mãe de família e responsável dona de casa. Acordo cedo para dar corda na casa. Estou à frente dos necessários cuidados com saúde, limpeza, manutenção, abastecimento e celebrações ligadas à vida familiar e literária. Tenho uma boa secretária doméstica com quem divido os afazeres. Diariamente saio e tomo providências quanto a banco, correio, médicos, farmácia, terapias, supermercado, feira, igreja, comércio em geral, enfim, a rotina indispensável à sobrevivência. De uns dez anos pra cá, somou-se aos vários encargos, a correspondência eletrônica.

SELMO VASCONCELLOS - Como surgiu seu interesse literário ?


ASTRID CABRAL - Meu interesse surgiu muito cedo. Aprendi a ler aos 5 anos, num tempo sem televisão. Os livros de histórias eram minhas fontes de aventuras e emoções. Aos 11 anos, quando me preparava para o exame de admissão ao ginásio, davam-me a tarefa escolar de fazer uma redação todos os dias. A professora apresentava gravuras e pedia descrições. O que era chatice para os coleguinhas, para mim era puro prazer. Eu me exercitava fazendo várias composições para a mesma figura. Numa falava de meus sentimentos diante do desenho e das cores. Em outra, era extremamente objetiva, descrevendo tudo de modo minucioso e imparcial. Experimentava também o modo narrativo, inventando um antes e um depois para o que a gravura mostrava em seu congelado presente.

SELMO VASCONCELLOS - Quantos e quais os seus livros publicados dentro e fora do País ?


ASTRID CABRAL - Ao todo, até o momento, tenho 16 livros publicados, sendo dois publicados no exterior: Cage, nos Estados Unidos e Doigts dans l’eau, na França. No Brasil, em prosa tenho: Alameda, contos e Zé Pirulito, história infantil. O forte na minha produção é a poesia. Por ordem cronológica: Ponto de cruz, Torna-viagem, Visgo da terra, Lição de Alice, Rês desgarrada, De déu em déu, Intramuros, Rasos d´água, Jaula, Ante-sala, 50 poemas escolhidos pelo autor, Antologia pessoal.

SELMO VASCONCELLOS - Qual o(s) impacto(s) que propicia(m) atmosfera(s) capaz(es) de produzir literatura ?


ASTRID CABRAL - Isso é muito misterioso. Acontece de modo imprevisível. Sou capaz de me determinar a produzir algo levada por convite, pedido ou compromisso assumido. Quando se trata de prosa, me submeto a um projeto. Quanto à poesia, é sempre uma impulsão interior que se apossa de mim, um processo íntimo e inadiável. Vem lá das cavernas do inconsciente. Há épocas em que estou mais fecunda, outras em que as tarefas do cotidiano me absorvem e me roubam totalmente a disponibilidade interior.

SELMO VASCONCELLOS - Quais os escritores que você admira ?


ASTRID CABRAL - São muitos, muitíssimos. Para citar apenas alguns do Brasil: Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, Clarice Lispector, J.J. Veiga, Carlos Drummond e Jorge de Lima. De Portugal : Camões, Fernando Pessoa e José Saramago. Da Espanha: Miguel de Cervantes e Federico Garcia Lorca. Da Itália, meus preferidos são o poeta Montale e o ficcionista Dino Buzzati. Da França: Rimbaud, Flaubert e Proust. Da literatura de língua inglesa, H.D. Thoreau (de quem traduzi Walden ou a vida nos bosques e Desobediência civil), Virginia Woolf, William Faulkner e Tony Morrison na ficção, e os poetas William Blake, Dylan Thomas, T.S. Eliot. Gosto imensamente de Kafka, pelo poder de concisão e do eloquente simbolismo. Os teóricos têm o meu respeito bem mais que o meu amor.

SELMO VASCONCELLOS - Qual mensagem de incentivo você daria para os novos poetas ?


ASTRID CABRAL - Diria o que digo a meus filhos. Cuidado com a arrogância. Há que ser humilde e trabalhar com afinco. Não se deixar engolir pelo maravilhoso mundo da imagem porque a linguagem da literatura é outra. Cuidado com os best-sellers recentes. Confiáveis são aqueles que atravessam os séculos. Distinguir qualidade de notoriedade. A mídia não serve como critério de julgamento. Conhecer nossa língua é fundamental. A flor do Lácio tem sido muito maltratada, despetalada por mãos apressadas e incompetentes. A invenção não exclui o respeito pela tradição. Há muito o que aprender com ela.

 

POEMAS


A casa no breu

Faz tanto tempo
que deixei aquela casa.
Confesso: não sei mais
da estrada nem da chave.
É como se ficasse em cidade
sem nome, em outro planeta
ou nem existisse mais.

No entanto não sei como
de vez em quando algo
me arrebata e me arrasta
ao seu regaço de breu.
Tudo o que eu ouço é o vôo cego
dos morcegos no vão das telhas
e uma torneira pingando
sem parar.

Será o choro de minha mãe na sala
ou serei eu mesma em pranto?

A palavra na berlinda

As palavras se contaminam
de cada um de nós.
Bebem nosso único sangue.
Engravidam das vivências
de específicos destinos.
Quando alçadas em abstrações
prévias estagiaram no cerne
de nossa própria carne.
Por isso descaminhos se traçam
e se cavam abismos e abismos
entre bocas e ouvidos.
O que se expressa e vigora
em aparente senha comum
não cintila a sua aura
e de nós o essencial ignora.

Amor no píer


Confesso: o amor por ti
não atravessou o mar.
Só molhou as pernas na espuma
e temendo vagas, dunas
não quis cavalgar o vento.


Confesso: o amor por ti
deixou-se ficar no píer
sem percorrer ponte alguma.
Acenavas terra ao longe
a ventura de outra margem.


Meu amor ficou no meio
refém do medo de risco.
Queria apenas passeio
a bordo escuna sem lastro.
Nunca a viagem de fato.

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Selmo Vasconcellos

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